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Se meu guarda-roupa falasse

Atualizado: Jun 7

De pessoa que detestava moda até palestrante do Fashion Revolution.


Sabe quando você abre o armário e é atacado como num filme de Harry Potter pelas suas roupas? O meu armário era assim. E o pior: eu não gostava dele.


Eu cresci na periferia da periferia de São Paulo, periferia de verdade, e apesar de quase nunca comprar roupas, eu sempre ganhei muitas roupas… e sempre guardei muitas roupas: afinal, se as doações parassem, não teríamos o que vestir.


Apesar de ser muito grata a elas, confesso que só depois entendi o porquê essa restrição me fez crescer odiando moda e o quanto odiá-la, me faria depois, amá-la.


Voltando à infância e adolescência. Tudo que eu gostava, eu não podia comprar. Tudo que eu ganhava, não me representava. Não me dava confiança. Achava que era coisa de gente fútil, imposição da sociedade. Não entendia como pessoas se divertiam escolhendo roupa. Eu queria mesmo era andar de pijama pelo mundo e falar: EI, VOCÊ NÃO PRECISA DISSO. Isso é um instrumento de opressão, não de personalidade.


Cresci. Passei na faculdade, consegui um bom emprego e pela primeira vez na vida comecei comprar roupas, mas ainda, nada me representava. As roupas que eram presente continuavam no armário e apesar de eu sempre desapegar de coisas e comprar outras, parecia que eu não conseguia acabar nem com a bagunça do armário, nem me sentir a Beyoncé. Olhava pra minhas colegas e pensava: queria saber me vestir como elas. A coisa chegou num ponto que ouvi de um chefe que minha competência no trabalho não era refletida nas minhas roupas.


Quando peguei o livro da Marie Kondo e vi que a primeira categoria eram roupas pensei: Ferrou, pra não falar aqui uma palavra mais forte e que transmite de fato, o que pensei.


Abri o armário, tirei toda uma categoria de dentro. SOCORRO, JESUS CRISTO. Não vou terminar isso nunca. Passado o choque (vou explicar no próximo texto como fazer essa arrumação bem certinha e como é esse negócio de baixar o armário todo no chão), comecei a abraçar as peças.


Me traz alegria, não me traz alegria? Parecia aquela criança brincando de bem-me-quer. Depois de alguns tive que confrontar a primeira realidade: o que eu usava todo o dia não era o que eu amava. O que eu amava estava lá, encostado no armário esperando uma ocasião especial.


Mais alguns abraços, e veio a segunda revelação: eu precisava dar adeus às peças que eram presente porque elas não me representavam. Eu preferia ter uma blusa que eu amasse em vez de 10 mais ou menos. Agradeci muito, e desapeguei.


Aos poucos, fui percebendo que minhas escolhas de amor ou não tinham um padrão lógico, mesmo conduzido pelo meu coração. Eu detestava jeans porque não tinha o jeans certo. Apesar dos 16 jeans no guarda-roupa, eu só usava calça legging. Porque pra mim conforto era importante e nenhuma das calças me dava isso. Sempre tive coxas, quadril e panturrilha grandes. Mantive a menor pior.


Depois, a terceira revelação: Leggings me trazem conforto, mas não confiança. Eu me sentia largada na maioria dos dias e eu queria me sentir Gisele Bundchen! Eu tinha que conduzir reuniões importantes no trabalho e não me sentia inteligente usando elas. Dei tchau pra elas e comecei a usar calças soltinhas, mais de alfaiataria, da balada até a reunião da empresa.


E o processo continuava e eu me descobria mais! Amo tênis, em qualquer ocasião. Também amo salto alto, mas eles não me traziam alegria depois de 2 ônibus e um metrô em pé. Eram os chamados itens da vida imaginária. Aqueles que você ama, mas não encaixam na sua rotina e ter eles não vai mudar isso. Mantive pouquíssimos, com salto grosso e confortável.


E também teve aquela revelação na contramão da sociedade. Eu odeio sutiã com bojo. Tenho peito pequeno e aquilo não funciona. Melhor assumir e aproveitar o privilégio de poder andar só com um top (ou com nada) ou ainda com aquele sutiã de renda maravilhoso.


SANTO DEUS VOU FICAR SEM ROUPA. Claro que eu pensava isso, mas continuei e fiquei com ⅓ dele. E sabe o que aconteceu? O contrário.


Meu guarda-roupa cresceu. Rendeu. Fiz combinações que nem sabia que eram possíveis, me sentia confiante e consequentemente, parei de comprar roupas. Pela primeira vez entendi que a moda era divertida. Que quando eu falava que tinha menos peças isso comunicava algo que eu acreditava: viver com menos (de forma voluntária, vamos deixar claro) é libertador.


E a organização? Ninguém deixa jogada no chão uma roupa que ama. A gente quer é fazer durar! Meu armário começou a ser melhor tratado que armário da Rainha Elizabeth!


3 anos depois dessa história (e de ver todas as minhas clientes passando pela mesma coisa), eu posso dizer que amo moda. Mas não moda como padrão e sim como expressão, como instrumento de mudança.


Eu decidi fazer um armário cápsula (depois conto mais dessa coisa que pensei ser coisa de gente rica e monocromática), fui estudar muito sobre cadeia de produção e descarte de peças e encontrei o movimento Fashion Revolution. Um movimento que acontece no mundo todo e tem como objetivo acabar com a parte consumista e símbolo de status que é a moda hoje e transformá-la em uma ferramenta poderosa para conscientizar as pessoas sobre impactos sociais, fortalecer pequenos produtores, incentivar a transparência e colaborar para a sustentabilidade.


Eu oficialmente encontrei a tendência que me representava: a moda como algo que liberta, em vez de oprimir. Que grita: ei você pode usar o que quiser! E é um privilégio terminar esse texto contando que essa menina aqui que detestava moda, agora ama tanto que vai ser uma das palestrantes do Fashion Revolution em 2019 pra falar sobre: Desapego, é possível viver com menos?


É gente. Se meu guarda-roupa falasse há 3 anos, ele reclamaria de mim. Mas hoje, sei que ele contaria pra você que ele é muito amado, organizado e revolucionário e que você pode tentar fazer o mesmo com o seu!

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