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Marie Kondo funciona?

Relatos de uma ex-bagunceira e algumas verdades.

Eu confesso que estou cansada. Em todos os lugares que olho, encontro alguém julgando a série Ordem na Casa, da Marie Kondo, produzida pelo Netflix, sem conhecer o mínimo da metodologia.

Mas pra falar a verdade, gostar ou não gostar da série é o que menos me incomoda. O que está me deixando triste e um tanto quanto furiosa é o olhar de julgamento para as pessoas que precisam de Marie Kondo e pras consultoras que não aparecem na série, mas estão lá 24h.

Como ex-bagunceira convicta (já fui a pessoa que precisou de Marie Kondo), e hoje, organizer, vim trazer minhas percepções sobre a série e a metodologia. Como aprendi? Sentindo na pele e conduzindo clientes muito especiais nessa jornada.

Sobre dinamismo, cultura japonesa e metodologia. 

Confesso que no primeiro episódio assistido eu pensei: essa série vai me atrapalhar, mais do que me ajudar. Dito e feito.

A edição do reality sem dúvida poderia ser mais dinâmica. Quem assiste a série imediatamente associa a um processo lento, quando na verdade, é uma metodologia divertida e enriquecedora como "Queer eye for a straight guy". Fica o meu apelo pro Netflix mostrar mais os bastidores da próxima vez.

A segunda coisa que causa estranhamento é a diferença cultural entre oriente e ocidente. Pra quem não sabe, meu namorado é japonês, e posso dizer com propriedade que a relação dos orientais com a casa e com seus objetos é diferente. É como se tudo tivesse energia e por isso, a apresentadora demonstra tanto respeito em rituais como cumprimentar a casa, acordar os livros e agradecer os itens descartados. Não é loucura. É só uma cultura diferente.

Falando da metodologia, ela tem um roteiro: organize por categorias, siga esses passos, dobre dessa forma. Sabe por que? Porque Marie Kondo é uma vez pra vida toda, e o passo a passo foi pensado pra bagunça nunca mais voltar pra casa da pessoa.

Isso significa que você não vai poder ter voz? Claro que não!

Como consultoras aprendemos a ouvir o cliente e quando necessário, adaptar. Quem define o que traz ou não alegria é só o cliente. Estamos aqui pra acolher e principalmente, respeitar. 

Toda vez que eu chego na casa de um cliente eu aviso: fazer Marie Kondo é como cantar Jorge Aragão: "A gente ri, a gente chora, a gente abre o coração!" 

As pessoas não fazem NADA sozinhas. Estão acompanhadas o tempo todo.

A série não mostra, mas existem consultoras o tempo inteiro acompanhando o processo, dobrando roupa, arrumando o armário, levando lixo pra fora, compartilhando histórias, incentivando e quando necessário, amparando as lágrimas e contendo o desespero. A gente estuda muito pra isso. Pegar a certificação não é rápido e muito menos fácil. Passamos por provas, testes, horas de estágio, de relatórios. Meses de dedicação e estudo intenso pra ouvir por aí que “ela entra na casa e depois larga a pessoa com aquela bagunça”.

NÃO. Vocês acham que eu ía desamparar alguém com aquela montanha de coisas que parece que toma vida e oprime as pessoas? Não. Eu já dormi na casa do cliente pra organizar a casa dele no período da noite, que era quando ele preferia! Mi bagunça, es su bagunça e estamos juntos nessa!

Marie Kondo é uma metodologia focada em deixar a vida das pessoas mais simples e real.

É chegar em casa e não ficar com preguiça de guardar o casaco, é sobre um guarda-roupa com dobras que não despenque quando você puxa uma camiseta, é sobre não atrasar porque demorou pra encontrar a chave de casa. É sobre liberdade. Quem faz Marie Kondo prefere ter uma blusa mais amassadinha do que carregar um gabarito de dobra de roupa pra onde for. É vida real, não Pinterest.

Pessoas bagunceiras NÃO são preguiçosas, imaturas, ou desleixadas.

Eu tô realmente de saco cheio de ver um monte de influenciador e personal organizer (o que me faz inclusive questionar a ética de alguns desses profissionais) julgando a vida de dezenas de pessoas que tiveram suas vidas expostas pela série como seres involuídos. E sobre esse tópico eu vou falar com mais propriedade ainda porque eu era uma dessas pessoas.

Euzinha, que morava num apto de 38 metros e não tinha metade das coisas das pessoas da série, mas mesmo assim não conseguia manter a ordem na casa durante a semana depois de uma jornada de trabalho e pós-graduação. Eu nunca tive empregada e sempre morei sozinha. Quando morava com minha mãe eu sempre limpava a casa, e meu quarto era minha responsabilidade desde que eu me conheço por gente. Mas eu era bagunceira! E SÓ! Durante a semana eu largava tudo no chão, jogado. Sábado 7h da manhã estava eu lá arrumando tudo de novo. Com a casa arrumada e limpa o suficiente pra comer no chão, o ciclo repetia. E se repetiu até meus 27 anos.

Diante dessa história, vocês querem mesmo que eu leia dezenas de textos sobre o quanto pessoas que precisam de Marie Kondo são imaturas e desleixadas ou sem responsabilidade? Acordar 7h da manhã de um sábado pra arrumar o guarda-roupa é tudo, menos sinal de irresponsabilidade.

Se as pessoas que me julgaram e falaram tanto sobre minha bagunça tivessem olhado com mais empatia eu provavelmente teria pedido ajuda e me organizado antes, em vez de levantar uma carcaça de ferro com o argumento: EU SOU BAGUNCEIRA, SIM, ME DEIXA.

Só quem já foi ou é bagunceiro sabe o quanto caminhamos só pelo fato de comprar um livro da Marie Kondo, ligar a tv na série, ou contratar uma consultoria OU

vocês acham que é realmente fácil pagar uma pessoa pra vir na tua casa, dobrar tuas calcinhas? Não existe nada mais íntimo e corajoso do que isso!

Marie Kondo é sobre assumir fraquezas, defeitos e ser humilde e forte o suficiente para reconhecer e pedir ajuda. Não sobre pessoas irresponsáveis que não dobram roupas ou colocam coisas no seu lugar.

Agora, como consultora e com formação em psicanálise, entendi o quão mais profundo e complexo é guiar alguém no processo Marie Kondo. Quando eu entro na casa das pessoas, eu encontro histórias de privação, famílias com problemas, autoestima baixa e autosabotagem. Histórias semelhantes às que existiam na minha vida. E isso, gente, série nenhuma no Netflix vai mostrar.

É preciso ter mais empatia, em vez de apontamento de dedo.

Então, por favor, páre de julgar ou se achar superior, maduro, desconstruído, porque você nunca precisou da metodologia Marie Kondo. Quem não ajuda, não atrapalha. Quando se posiciona dessa forma, você só está bagunçando mais a vida de um bagunceiro.

A maioria de nós não gosta de ser bagunceiro. A gente sofre muito, mesmo sem saber.

Em texto, a colunista Nina Lemos, que respeito muito e que também divide o estudo da psicanálise comigo, disse que “vida real é roupa jogada na casa”. Nina, como já estive dos dois lados, tenho que discordar.

Vida real é roupa de vez em quando jogada na casa. A gente precisa parar de romantizar a “bagunça organizada” e agora, considere também essa parte como uma resposta à coluna do El País.

Você acha que eu gostava de acordar 7h da manhã de sábado? Ou de chegar atrasada porque perdi minha chave? Ou do Uber cancelar porque eu não sabia onde tinha deixado meu óculos? De ter que tirar a segunda via do RG porque ele tinha sumido em casa? Ou de ver meus amigos chegando ao meu aniversário primeiro que eu porque eu não sabia que roupa usar? E de nunca saber se eu deveria cancelar  o cartão de crédito perdido, porque ele poderia estar enrolado em alguma roupa minha no meio das almofadas do sofá? QUAL É.

Eu lidava com isso, defendia isso, “gozava”, pra usar a expressão psicanalítica, com isso, mas não me fazia bem.  A vida já é foda, repleta de ansiedade, e a bagunça só deixa isso mais difícil e sufocante. Se você é bagunceiro você sabe disso.

O único detalhe é que muitos de nós não consegue sair dessa confusão sozinho. Como diz uma cliente, hoje amiga, “nossa, se eu soubesse que minha vida ía ficar tão mais fácil, eu tinha te contratado antes”.


 

Marie Kondo não é descartar. Ela nos ensina e nos permite escolher.

Semana passada ouvi: claro que ela organiza, ela joga tudo fora!

NÃÃÃO.

Uma das frases que que abre meu instagram é: menos organizadores plásticos, mais escolhas com amor. Escolhi essa frase porque sei que com a oferta de organizadores dos mais diversos tipos no mercado, eu sou muito capaz de guardar todos seus objetos em metade dos espaços que eles ocupam hoje.

Então, eu quero deixar claro que não preciso descartar tudo pra organizar e justamente por isso, Marie Kondo não é uma metodologia que incentiva o descarte. Ela nos força identificar as coisas que amamos dentro da nossa casa.

Só que, na vida real, amamos cerca de 1/3 só das nossas coisas. E por isso essa metodologia é tão transformada. Como consultoras nosso trabalho é incentivar o cliente a entender isso e fazer escolhas baseada em seus princípios e nas coisas que realmente ama e que trazem alegria. Reflexões como o que realmente devo comprar? onde quero investir meu tempo? preciso ganhar tanto assim? É melhor gerenciar presentes de amigos ou aproveitar a vida com eles? Quais são meus sonhos? Onde estou me sabotando? permeiam todo o processo. 

Quando encaramos a quantia de coisas que não amamos e que ocupam espaço físico e de vida na nossa casa ficamos chocados. Mas dava pra evitar? Aprendemos que a solução pra tristeza é comprar, e quando felizes, compramos pra comemorar! Quando não encontramos o que queremos, compramos “esse mesmo”, até encontrar um que gostemos mais. Quando queremos pregar a sustentabilidade, continuamos comprando, mas de brechós e de pequenos empreendedores.

Até que, quando estamos saturados, enchemos algumas sacolas de itens e doamos, arrematando todo aquele consumo desenfreado com uma certeza: a de estar fazendo o bem e ajudando o outro!  Nem uma peça de Zé Celso dá conta de representar tanto consumo.

Então, a questão não é descartar tudo. É encarar de frente todas as coisas que você comprou pra preencher um espaço, buscar respostas ou simbolizar a realização de um sonho, e substituir o verbo comprar e guardar  pelo verbo AGIR.

Ninguém termina Marie Kondo do mesmo jeito que começou.

Essa sem dúvida, é minha maior certeza. Cada cliente tem um desafio e uma facilidade  diferente, mas todos se tornam pessoas melhores, com vidas e rotinas mais simples. Tem gente que muda de emprego, resolve casar ou até terminar! Gente que realiza a viagem dos sonhos ou decide mudar de cidade de vez. Gente que vê mais os amigos, brinca mais com os filhos e que agora tem tempo pra fazer atividade física ou aquele bolo de chocolate delícia!

 

No fim, é como se nossos pertences formassem um rio largo, de sentimentos desconhecidos, que bloqueia nossa visão do outro lado. Atravessá-lo é difícil, mas uma barqueira japonesa resolve ir ao nosso lado, mostrando o melhor caminho. Com a certeza de que não vamos afogar, mergulhamos no autoconhecimento até encontrar a outra margem e, quando chegamos, percebermos que ela só nos traz alegria. 

Carol Ferraz

Ex-bagunceira convicta, Relações- Públicas pela Cásper Líbero, especialista em clínica da cultura e semiótica psicanalítica pela PUC, deixou o departamento de comunicação de uma grande empresa depois de ter sua vida transformada pelas metodologias de organização. Hoje, é consultora em treinamento Marie Kondo e personal organizer formada pela A Casa Com Vida, conduzida por Micaela Góes e Ivana Portella.